MOLÉCULA “DE DUAS CABEÇAS” CONTRA O CÂNCER DA PRÓSTATA
Uma esperança vem da biologia molecular: há uma pequena molécula de duas cabeças (ou entradas), que podem arregimentar o sistema imune do paciente e lançá-lo contra células cancerosas da próstata! Se tivermos sorte, com muito trabalho, esta linha poderá tratar, também, outros cânceres, com efeitos colaterais comparativamente pequenos.
Qual é a história?
As células cancerosas da próstata produzem altos níveis de umas proteínas que ficam na sua superfície. Elas não existem nessa quantidade em outros lugares do corpo humano. Uma delas é conhecida como PSMA (prostate-specific membrane antigen ). Se pudermos treinar o nosso sistema imune a identificar esse antígeno como inimigo, nossas defesas vão atacá-lo e vão destruir ou danificar seriamente as células onde ele repousa. Os pesquisadores, que não são bobos, já apontaram suas armas para esses antígenos, ligando anticorpos que são específicos contra o PSMA. Além disso, quimioterapia neles – na forma de radionuclides. As drogas, porém, ainda afetam células sadias. A devastação é geral: morrem células cancerosas e células sadias. Essa destruição de células saídas provoca os conhecidos efeitos colaterais da químio, sem falar no preço; os tratamentos com químio e radionuclides são caros. É aí que surge o PSMA!
Essa pequena molécula, do lado esquerdo, tem algo chamado DUPA, que tem a habilidade de grudar no antígeno da célula da próstata, e outro algo chamado DNP, do lado direito, que é um conjunto químico reconhecido pelos nossos anticorpos. O DNP é um conhecido contaminante ambiental e a maioria de nós, humanos, tem anticorpos que partem para cima dele. Se o DUPA grudar principalmente nas células cancerosas da próstata, do lado do DNP haveria uma espécie de imã, atraindo os anticorpos que atacariam o DNP e destruiriam as células.
Vai funcionar? Ninguém sabe. Não obstante, os pesquisadores já começaram os testes: injetaram tecidos cancerosos em camundongos desprovidos de sistema imune. Aí injetaram linfócitos humanos para tornar a reação imune mais parecida com a humana. Finalmente, injetaram a molécula de duas cabeças. Depois de três tratamentos semanais durante duas semanas, os tumores tinham sofrido uma redução gigantesca, e estavam 80% menores (na média) que o dos camundongos tratados somente com DUPA. Quando fizeram o exame histológico dos tumores, verificaram que os linfócitos tinham entrado nos tumores. Aliás, os linfócitos também são chamados vulgarmente de células naturalmente assassinas….
É mais um caminho nessa estrada do tratamento e cura que se amplia diariamente no campo da imunologia.
Gláucio Soares
IESP-UERJ
